terça-feira, 3 de agosto de 2010

Vícios e Virtudes


Primeiramente, peço licença ao Charlie Brown Jr. Para tomar emprestado o nome de sua música para título deste texto, não consegui imaginar nenhum outro que “encaixasse” melhor.

Todo ser humano erra e acerta, faz parte da nossa natureza, da nossa essência, do que somos. Vou mais além e digo que, na verdade, são os erros que pavimentam o caminho do sucesso e não os acertos, estes são mais o produto do entendimento de determinada realidade, entendimento este alcançado através do aprendizado com os erros, que podem ser os nossos próprios erros ou os erros alheios (sorte de quem consegue aprender com os erros dos outros facilmente, temos uma tendência a gostar de provar na própria pele as coisas, mas faz parte para a construção da nossa própria experiência de vida, para marcar algo na memória nada melhor do que experimentá-lo você mesmo não é?).

Logo, ter defeitos e virtudes pode ser encarado como natural certo? Certo, mas porque nos preocupamos tanto em eliminar nossos defeitos, em sermos melhores ao invés de procurarmos entender determinadas características e usá-las nos momentos mais apropriados e com as pessoas apropriadas? Na verdade, defeitos e qualidades foram determinados pela humanidade, mas, no fundo, é uma questão de contexto e de ponto de vista. Da mesma forma que o erro e o acerto de uma forma geral. Explico-me. Ir dar uma corridinha na praia seria um erro? Normalmente não, é até recomendado, mas se estiver chovendo e você estiver resfriado é um grande erro. Claro que existem erros e acertos “absolutos”, por exemplo, se alguém for perguntado quanto é 2 + 2, qualquer resposta diferente de 4 sempre será um erro. Mas não estamos nesse campo, estamos falando do comportamento humano e acho que você que está lendo já entendeu meu recado inicial, portanto, vamos expandir nosso pensamento aos defeitos e virtudes.

A teimosia, você classificaria como o que? Um defeito? Uma virtude? Eu diria que, como você já deve antecipar, depende do contexto. Determinado, convicto e até disciplinado (por que não?) são outras formas (elegantes) de chamar alguém de teimoso, o que é a teimosia senão a determinação disfarçada? Aquela convicção tenaz de que seu ponto de vista está certo? É a mesma característica de uma pessoa que ora é encarada como defeito, ora como qualidade.

Eu poderia encher este post com mais exemplos, mas ainda preciso chegar aos vícios e explicar sua relação com as virtudes. Bem, e os vícios? Em minha opinião, um vício nada mais é que a repetição exagerada de algo que a sociedade classifica como prejudicial, meio que como a repetição exagerada de um defeito (sim, porque ninguém fala que alguém é viciado em fazer caridade). Alguns desses defeitos são socialmente aceitos (beber, fumar), outros não (usar drogas ilícitas), mas, no geral, não são tidos como qualidades.
Se forem defeitos, e eu disse antes que ser defeito ou não depende do contexto, eu tenho que mostrar em que contexto estes defeitos podem ser qualidades, podem não ser prejudiciais e sim benéficos. Beber por exemplo, se na medida certa, no seu limite, pode ser o “empurrãozinho” necessário para se entrosar em determinado grupo ou meio, para fazer novas amizades, todo mundo conhece aquela célebre frase “eu nunca fiz amigos bebendo leite”. Não entro no mérito de a frase ser genial ou imbecil (conheço pessoas de ambas as opiniões), mas o álcool de fato é um agente socializante estupendo, ainda mais para os tímidos. E por conta de um “defeito”, um “vício”, pode-se acabar fazendo amizades numa mesa de bar para a vida toda, que por fim pode acarretar-lhe oportunidades que tem a possibilidade de mudar sua vida para sempre.

Agora o ato de fumar. Essa parece ser mais difícil de defender, eu mesmo acharia isso caso não tivesse ocorrido comigo, um mês atrás mais ou menos, algo que me levou a essas considerações, e por fim, a esse post.

Eu não fumo, nunca gostei e não gosto, mas há um mês eu sai com uns amigos para uma boate meio alternativa que eu nunca havia ido. Gostei muito do lugar e queria mesmo entrar no clima daquela noite, conhecer melhor as pessoas que vão lá, enfim, me entrosar. Então, teve um momento em que meu amigo saiu para fumar e eu fui com ele para não deixá-lo sozinho lá fora. Chegando lá fora tinha bastante gente fumando e conversando e estava bem animado até, daí do nada, pedi um cigarro para ele e experimentei (continuei não gostando, mas fui até o final e não deixei transparecer). Depois, quando já estava em casa, fiquei pensando na idiotice que havia feito, já que eu sempre fui tão convicto na minha posição quanto ao fumo. Ao invés de me martirizar, decidi tentar entender porque havia feito aquilo, já que, no geral, aquela circunstância não era nova, ou seja, sempre tive um ou outro amigo que fuma, já ocorreu de ir a boates ou outras festas com eles e nunca quis experimentar. Por fim, entendi que foi o contexto daquela boate especificamente, a galera e o ambiente do lado de fora estavam muito animados, muito convidativos e agradáveis, e eu quis de alguma forma me inserir naquela atmosfera, e fumar, naquele momento, foi o que eu acreditei (inconscientemente) ser o mais adequado para conseguir isto.

O meu objetivo principal neste post é mostrar que antes de julgarmos se uma pessoa está agindo certo ou errado, se ela tem tal defeito ou qualidade, devemos analisar o quadro todo, o contexto da situação. Muitas vezes fazemos coisas que podem nos surpreender, mas é apenas nosso inconsciente tentando, da melhor forma, atingir o bem-estar interior que desejamos. Resta-nos aprender com as experiências vividas e deixar “registrado” nossos limites, mas não se cobrem em excesso, errar faz parte da arte de viver, algumas transgressões, às vezes, são um combustível para a alma e nos levam a ter mais "bagagem" para fazer escolhas importantes mais à frente. Como diria a eterna sábia e genial Clarice Lispector:
“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso, nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”

2 comentários:

Claudia disse...

A D O R E I mas sou suspeita...veremos os próximos comentários...bju e amo

Anônimo disse...

Achei seu texto muito interessante, pois nunca tinha parado pra pensar nisso.
Estou me remoendo esses dias porque me dei conta de que sou muito sincera e sempre achei que isso fosse uma virtude, mas na verdade eu ofendo as pessoas e isso vira um "vício".
Continue escrevendo,
um abraço!