sábado, 19 de junho de 2010

Se ao menos soubermos o que fazemos

Já reparou que as perguntas mais simples são as mais difíceis de responder? Quem é você? Boa pergunta. Não sei e se alguém souber, por favor, me conta? Já ouvi muitas teorias sobre quem a gente realmente é. Uma mais mirabolante que a outra, dentre essas, uma me pareceu interessante. Você é o que você acredita ser e o que os outros pensam que você é. Legal, como descubro isso? saio por ai perguntando, o que você acha de mim? Se eu faço isso será fácil descobrir, porque todos vão responder enfaticamente, maluca. Porque só maluco faz uma pergunta dessas.

Tento buscar na minha memória coisa que possam me identificar comigo, mas vou logo avisando, não recomendo que façam o mesmo. Você pode não gostar ou mais não ver nada. Minha lembrança mais antiga é a da queda do muro de Berlim. Estranho não?  Pois é, me lembro perfeitamente de estar sentada no sofá da minha antiga casa vendo ao vivo na TV a queda do Muro. Meu pai estava bem do lado, e até hoje sua expressão não me sai da memória. Eu tinha três anos.

Era uma criança quando tomei pela primeira vez aulas de história e idealismo do meu pai. Não sei o que disse, ai já é demais, mas me lembro desse dia. Desde que eu me entendo por gente, e não faz tanto tempo assim sou uma pessoa fissurada por livros, na escola sempre gostei de literatura e história. Cresci assim. Na minha casa intelectualidade era muito valorizada e política se discutia no café da manhã.

Tudo contribuía para que ser uma grande leitora. Meus pais jornalistas, “ideologistas” e levemente liberais contribuíram para um livre desenvolvimento intelectual. Era assim, se você quer saber algo, procure, leia e descubra. E ler é ter várias vidas ao mesmo tempo, ver várias coisas e conhecer diferentes pessoas. Daí depois de ler muitas opiniões e histórias dos outros, comecei a querer escrever a minha própria história e compartilhar meus pensamentos. O que eu foi rapidamente estimulado por todos. Meus pais e seus amigos eram os primeiros a querer saber o que pensava. Logo me senti importante.

As férias no jornal me ensinaram à importância da opinião e da palavra na vida das pessoas. Amei, mas não me convenci. Gostava de lá, mas não queria ser os meus pais, não podia. Eu era uma adolescente, que amava ler, tinha viés político, apaixonada por Chico e Caetano, curiosa por línguas, mas que ia fazer arquitetura. Fiz e não deu certo. A inquietação era tanto que resolvi trancar, mas como falar isso pro meu pai, que a essa altura se tornara advogado. Eu sabia o que queria, mas assumir era diferente. Minha mãe compreenderia, afinal é jornalista até hoje, mas meu pai tinha largado a profissão ?!

Como não dava mais, contei. “Pai vou trancar a faculdade” Para minha surpresa o Doutor Antero olhou fixamente pra mim e disse: “Vai mudar para jornalismo?”. Ele sabia, ele me conhecia mais que eu. Não bastando à surpresa, meu velho pai disse pra mim, “Acho fascinante”. Desde então nunca mais se falou em arquitetura. Eu estou cursando jornalismo para exercer de uma profissão que aprendi a amar entre cafés da manhã e férias na redação.

Talvez quando meu pai me contou seu sonho comunista, suas experiências na ditadura, não me obrigou a dormir cedo e a não tirou da sala nas conversas de “adulto”, ele não tenha imaginado que isso daria no que deu. Faculdade de jornalismo. Porém, é comprovado que todos os meus amigos filhos de “coleginhas”, hoje são “coleginhas”.Coincidência? Talvez. Genética? Pode ser.

Meu pai, certamente, nunca pensou que ao me contar, tão pequena, a importância daquilo que estava vendo na TV despertaria em mim uma grande paixão em contar histórias parecidas com aquela . Meu pai pode não saber responder quem eu sou se for questionado como eu fui agora, mas certamente algo nele e em outras tantas pessoas que tiveram a mesma reação, souberam ver que dentre as muitas “Carois” uma delas era jornalista. Talvez nunca descubra quem eu sou, nem você, mas se ao menos soubermos e acreditarmos no que fazemos, teremos um grande feito de que nos orgulhar.

5 comentários:

pedro disse...

Gostei do texto!

Paulinha disse...

Como já te disse, tenho muito orgulho de você! Adorei o texto, vou mostrar pra todo mundo e contar que foi minha amiga que escreveu!

Laís . disse...

Definir quem você é em palavras é impor limites a você mesma. Você é muito mais do qualquer definição sobre você!
Amei o blog linda!

Beijos!

Renata . disse...

arrasou carol!

Ludmila disse...

amei seu post!!!!